Tem noites que te pegam de repente
Te olham de frente enfrentam tua mente
E você nem sabe mais o que sente
Tanta confusão emoção tanta gente
Tanta paixão e você assim tão carente
E você se sente, nem sabe, diferente
Você não pertence a esse estranho ambiente
Quer desaparecer, inconsequentemente
Na trilha de uma estrela cadente
Agente se sente tão triste e nem sabe porque
Agente nem sabe se existe e nem quer mais viver
E tudo parece errado e o tempo parece atrasado
Tudo parece errado e parece que o mundo te deixou de lado
domingo, 23 de maio de 2010
quinta-feira, 20 de maio de 2010
Sophia e os Castelos
Quando Sophia foi à praia pela primeira vez, ficou fascinada com todos os castelos que as pessoas faziam na areia. Por toda parte, para todos os lados que olhava, Sophia via castelos. Todos a sua volta pareciam fazer a mesma coisa: construir castelos de areia.
Para não se sentir excluída, Sophia achou um canto, sentou-se, juntou um punhado de areia e começou a construir seu próprio castelo. Tão logo começou seu trabalho, reparou em algo engraçado. Algo que ninguém parecia ter notado. O mar. Sophia percebeu que o mar avançava em direção a areia. Em direção as pessoas. Em direção aos castelos. Será que ninguém percebia que, cedo ou tarde, o mar ia alcançar os castelos?
Sem querer estragar a brincadeira de todos, a menina balançou a cabeça e tentou esquecer das ondas que ameaçavam as construções. Mas, quanto mais trabalhava, mas tinha a sensação de que aquela era uma brincadeira muito boba e sem sentido. Porque perder todo esse tempo construindo um castelo que vai desmoronar?
Tentou avisar as pessoas. Mas ninguém queria ouvir. Alguns lhe falavam que construíam castelos somente para se distrair, alguns diziam que, se o castelo fosse grande o suficiente, o mar não iria destruí-lo e alguns simplesmente diziam que não havia mar algum e que ela deveria parar de pensar besteira. É verdade que uma velinha, ao ouvir Sophia falar do mar, olhou bem para a menina e falou: “Não é que você tem razão?” e foi embora da praia. Mas a maioria das pessoas não queria ouvir falar de mar nenhum.
Sem saber bem o que fazer, Sophia resolveu voltar para seu castelo. Construiu bonitas torres e um lindo muro e uma ponte grande e imponente. Passou horas construindo, mas, a cada segundo, Sophia sentia o mar chegando mais perto, e isso a enchia de temor.
Finalmente o mar derrubou um castelo. Sophia deu um grito de horror ao ver o que tinha acontecido. Mas ninguém mais notou. Ou ninguém pareceu notar. Todos estavam entretidos com seus próprios castelos, e ninguém queria saber do castelo dos outros.
Horrorizada, Sophia continuou trabalhando e tentou esquecer do mar. Mas, vez ou outra, olhava na direção do mar e podia vê-lo chegando, cada vez mais perto, cada vez mais ameaçador.
E assim foi o dia de Sophia na praia. No final, todos os castelos foram destruídos pelo mar e só sobrou o de Sophia. E então, Sophia não podia mais fingir que o mar não existia, e não podia mais fingir que seu castelo iria durar para sempre. E Sophia olhou para todos em volta e perguntou, em um grito:
“Porque vocês me deixaram construir esse castelo? Porque não me avisaram que ele estava fadado? Porque continuaram construindo os seus castelos quando sabiam muito bem que eles não iriam durar? Porque fizeram isso comigo?”
Ninguém respondeu.
Para não se sentir excluída, Sophia achou um canto, sentou-se, juntou um punhado de areia e começou a construir seu próprio castelo. Tão logo começou seu trabalho, reparou em algo engraçado. Algo que ninguém parecia ter notado. O mar. Sophia percebeu que o mar avançava em direção a areia. Em direção as pessoas. Em direção aos castelos. Será que ninguém percebia que, cedo ou tarde, o mar ia alcançar os castelos?
Sem querer estragar a brincadeira de todos, a menina balançou a cabeça e tentou esquecer das ondas que ameaçavam as construções. Mas, quanto mais trabalhava, mas tinha a sensação de que aquela era uma brincadeira muito boba e sem sentido. Porque perder todo esse tempo construindo um castelo que vai desmoronar?
Tentou avisar as pessoas. Mas ninguém queria ouvir. Alguns lhe falavam que construíam castelos somente para se distrair, alguns diziam que, se o castelo fosse grande o suficiente, o mar não iria destruí-lo e alguns simplesmente diziam que não havia mar algum e que ela deveria parar de pensar besteira. É verdade que uma velinha, ao ouvir Sophia falar do mar, olhou bem para a menina e falou: “Não é que você tem razão?” e foi embora da praia. Mas a maioria das pessoas não queria ouvir falar de mar nenhum.
Sem saber bem o que fazer, Sophia resolveu voltar para seu castelo. Construiu bonitas torres e um lindo muro e uma ponte grande e imponente. Passou horas construindo, mas, a cada segundo, Sophia sentia o mar chegando mais perto, e isso a enchia de temor.
Finalmente o mar derrubou um castelo. Sophia deu um grito de horror ao ver o que tinha acontecido. Mas ninguém mais notou. Ou ninguém pareceu notar. Todos estavam entretidos com seus próprios castelos, e ninguém queria saber do castelo dos outros.
Horrorizada, Sophia continuou trabalhando e tentou esquecer do mar. Mas, vez ou outra, olhava na direção do mar e podia vê-lo chegando, cada vez mais perto, cada vez mais ameaçador.
E assim foi o dia de Sophia na praia. No final, todos os castelos foram destruídos pelo mar e só sobrou o de Sophia. E então, Sophia não podia mais fingir que o mar não existia, e não podia mais fingir que seu castelo iria durar para sempre. E Sophia olhou para todos em volta e perguntou, em um grito:
“Porque vocês me deixaram construir esse castelo? Porque não me avisaram que ele estava fadado? Porque continuaram construindo os seus castelos quando sabiam muito bem que eles não iriam durar? Porque fizeram isso comigo?”
Ninguém respondeu.
domingo, 16 de maio de 2010
Um Grito na Noite
Quero sair desse mundo
Desse mundo de encontros e risadas
E festas intermináveis
Quero sair desse mundo
De sexo e de alegria
De fantasia e de euforia
Esse mundo sem poesia
De confiança e traição
Sem tédio e sem emoção
Esse mundo estranho e errado
Que caminha a passos largos
Em direção a perfeição
Esse mundo, não quero mais esse mundo
Que nunca me aceitou, nunca me quis
Não quero mais participar
Não quero saber dessa festa
Que ninguem me convidou
Se é para mudar, para se encaixar em alguma forma padronizada
E no resultado adicionar pequenos pedaços de personalidade partida
E chamar isso de individualização,
Eu? Eu digo não.
Me enojam esses sorrisos
Me enojam esse orgasmos
Me enoja esse gozo eterno
Esse desespero hedonista
Me enoja essa vida que tem de ser vivida
Do primeiro ao ultimo minuto
Intensamente
Não quero saber de seus amigos
Não quero saber de suas drogas
De seus encontros de seu namorado
Não quero saber de nada que você tem a oferecer
Você que vive, que dança, que aproveita,
Que absorve tudo ao seu redor
Se encheu tanto de vida e de prazer
Se encheu tanto de alegria e de paixão
Que perdeu tudo que tinha em você
Perdeu tudo que valia e não se importou
Valeu a pena?Valeu a pena? Ganhou
emoção, paixão e ilusão
Ganhou tudo isso
Mas em retorno, abriu mão de tua razão.
Que pena.
Valeu a pena?
Desse mundo de encontros e risadas
E festas intermináveis
Quero sair desse mundo
De sexo e de alegria
De fantasia e de euforia
Esse mundo sem poesia
De confiança e traição
Sem tédio e sem emoção
Esse mundo estranho e errado
Que caminha a passos largos
Em direção a perfeição
Esse mundo, não quero mais esse mundo
Que nunca me aceitou, nunca me quis
Não quero mais participar
Não quero saber dessa festa
Que ninguem me convidou
Se é para mudar, para se encaixar em alguma forma padronizada
E no resultado adicionar pequenos pedaços de personalidade partida
E chamar isso de individualização,
Eu? Eu digo não.
Me enojam esses sorrisos
Me enojam esse orgasmos
Me enoja esse gozo eterno
Esse desespero hedonista
Me enoja essa vida que tem de ser vivida
Do primeiro ao ultimo minuto
Intensamente
Não quero saber de seus amigos
Não quero saber de suas drogas
De seus encontros de seu namorado
Não quero saber de nada que você tem a oferecer
Você que vive, que dança, que aproveita,
Que absorve tudo ao seu redor
Se encheu tanto de vida e de prazer
Se encheu tanto de alegria e de paixão
Que perdeu tudo que tinha em você
Perdeu tudo que valia e não se importou
Valeu a pena?Valeu a pena? Ganhou
emoção, paixão e ilusão
Ganhou tudo isso
Mas em retorno, abriu mão de tua razão.
Que pena.
Valeu a pena?
sábado, 1 de maio de 2010
A Sina do Artista
A sina do artista é nunca apaixonar-se por um semelhante por completo. É viver fadado a estar sempre incompleto.
A sina do artista é nunca estar feliz quando não está só. A sina do artista é nunca não estar só.
A sina do artista é ser obrigado a respirar somente pela arte. A sina do artista está em viver sempre e somente pela arte.
A sina do artista é viver para sempre na platéia, assistindo a vida. A sina do artista é observar de longe, nunca e jamais entender a vida.
A sina do artista é ser todos, quando faz a sua arte. A sina do arista é ser ninguém, pois depois tudo vai embora e só sobra a arte.
A sina do artista é viver apaixonado, mas apaixonado por ninguém. Não entende como pode um ser comum apaixonar-se tão intensamente por outro ser qualquer. Pois o artista, o verdadeiro artista, aquele que nunca teve escolha, só consegue amar mesmo o conceito do amor. E é assim que vira artista. Assim que faz arte.
A sina do artista é nunca estar feliz quando não está só. A sina do artista é nunca não estar só.
A sina do artista é ser obrigado a respirar somente pela arte. A sina do artista está em viver sempre e somente pela arte.
A sina do artista é viver para sempre na platéia, assistindo a vida. A sina do artista é observar de longe, nunca e jamais entender a vida.
A sina do artista é ser todos, quando faz a sua arte. A sina do arista é ser ninguém, pois depois tudo vai embora e só sobra a arte.
A sina do artista é viver apaixonado, mas apaixonado por ninguém. Não entende como pode um ser comum apaixonar-se tão intensamente por outro ser qualquer. Pois o artista, o verdadeiro artista, aquele que nunca teve escolha, só consegue amar mesmo o conceito do amor. E é assim que vira artista. Assim que faz arte.
domingo, 25 de abril de 2010
Minha Arte Vazia
Quero um dia escrever
Uma poesia pra expor
Nada e coisa alguma
Pra dizer coisa nenhuma
Uma poesia sem mensagem
Sem contexto e sem imagem
Sem começo, meio ou fim
Um entendiante pedaço escrito
De mim
E quase ninguém vai ler
E quem ler não vai gostar
E quem gostar não vai entender
E quem entender vai odiar
Porque ela vai existir
No limite da existência
Sem conteudo, sem alma
Sem contexto e sem essência
Ela vai existir
Só por existir
Minha poesia,
Minha arte vazia,
Que um dia vou fazer
Pode ter certeza, vai ser
Como eu e você
Sem nunca entender
Porque existe
Sem nunca saber
Seu motivo de viver
Uma poesia pra expor
Nada e coisa alguma
Pra dizer coisa nenhuma
Uma poesia sem mensagem
Sem contexto e sem imagem
Sem começo, meio ou fim
Um entendiante pedaço escrito
De mim
E quase ninguém vai ler
E quem ler não vai gostar
E quem gostar não vai entender
E quem entender vai odiar
Porque ela vai existir
No limite da existência
Sem conteudo, sem alma
Sem contexto e sem essência
Ela vai existir
Só por existir
Minha poesia,
Minha arte vazia,
Que um dia vou fazer
Pode ter certeza, vai ser
Como eu e você
Sem nunca entender
Porque existe
Sem nunca saber
Seu motivo de viver
sexta-feira, 23 de abril de 2010
Sophia e as Estrelas
Mais um da série "Aventuras de Sophia". Talvez eu publique um livro.
Não é meu melhor trabalho, mas, para um poeta semi-bebado as 4 da manhá, é uma vitória.
Foi uma fria noite de domingo que Sophia se apaixonou por uma estrela. Sem conseguir dormir, olhou para o céu e, naquele sem fim de estrelas, encontrou uma que parecia brilhar de uma forma especial, só para ela. E se apaixonou. Jurou amor eterno aquela linda estrela. Naquela noite, não dormiu. Pensava na estrela, deitada na cama, e, de vez em quando, ia até a janela e lá ficava, mirando o céu, namorando seu grande amor. Passaram-se dias, meses, e Sophia não pensava em outra coisa senão naquela estrela. Passou a odiar a manhã e a tarde. Contava os minutos para a noite chegar e poder encontrar-se novamente com seu grande amor. E como era correspondida! A estrela parecia brilhar mais a cada noite, iluminada por seu novo amor. Tinham encontro marcado todas às noites, às dez e meia, quando Sophia ia dormir, e, por muito tempo, a estrela não faltou em um encontro. Sophia também não.
Uma noite, a estrela não apareceu. Sophia esperou ansiosa, como sempre, o dia acabar. Mas chovera a tarde toda e de noite o céu surgiu, carregado de nuvens, e nada da estrela aparecer. A pobre menina não dormiu a noite toda. Levantava-se de dez em dez minutos para olhar a janela, esperando a estrela que não aparecia. Mas a manhã veio e a estrela não apareceu. Sophia dormiu, e a luz do sol da manhã iluminou seus olhos manchados de lagrimas, segundos antes de eles se fecharem.
Passou-se uma semana, e nada da estrela aparecer. Até que uma noite, Sophia, distraída, olhou para o céu. E lá estava sua linda estrela. E Sophia sorriu. Mas já não era o mesmo sorriso. E a estrela brilhou. Mas já não era o mesmo brilho.
Mais algum tempo se passou. A estrela faltou em alguns encontros. Sophia faltou em outros. Até que uma noite uma coisa muito estranha aconteceu. Sophia olhou para o céu e percebeu que ele estava cheio de estrelas. E todas elas brilhavam. Foi neste dia que Sophia percebeu que sua estrela não era especial, não brilhava mais do que as outras. Era apenas uma estrela, no meio de tantas outras. E Sophia se apaixonou novamente. Por outra estrela, esta sim, muito mais brilhante, muito mais bonita. E Sophia esqueceu de seu primeiro amor.
E assim foi para o resto de sua vida. Somente no fim, quando já tinha amado todas as estrelas do céu, foi que Sophia percebeu que buscava nas estrelas um brilho que não existia senão dentro dela. E Sophia entendeu finalmente o que é o amor.
Não é meu melhor trabalho, mas, para um poeta semi-bebado as 4 da manhá, é uma vitória.
Foi uma fria noite de domingo que Sophia se apaixonou por uma estrela. Sem conseguir dormir, olhou para o céu e, naquele sem fim de estrelas, encontrou uma que parecia brilhar de uma forma especial, só para ela. E se apaixonou. Jurou amor eterno aquela linda estrela. Naquela noite, não dormiu. Pensava na estrela, deitada na cama, e, de vez em quando, ia até a janela e lá ficava, mirando o céu, namorando seu grande amor. Passaram-se dias, meses, e Sophia não pensava em outra coisa senão naquela estrela. Passou a odiar a manhã e a tarde. Contava os minutos para a noite chegar e poder encontrar-se novamente com seu grande amor. E como era correspondida! A estrela parecia brilhar mais a cada noite, iluminada por seu novo amor. Tinham encontro marcado todas às noites, às dez e meia, quando Sophia ia dormir, e, por muito tempo, a estrela não faltou em um encontro. Sophia também não.
Uma noite, a estrela não apareceu. Sophia esperou ansiosa, como sempre, o dia acabar. Mas chovera a tarde toda e de noite o céu surgiu, carregado de nuvens, e nada da estrela aparecer. A pobre menina não dormiu a noite toda. Levantava-se de dez em dez minutos para olhar a janela, esperando a estrela que não aparecia. Mas a manhã veio e a estrela não apareceu. Sophia dormiu, e a luz do sol da manhã iluminou seus olhos manchados de lagrimas, segundos antes de eles se fecharem.
Passou-se uma semana, e nada da estrela aparecer. Até que uma noite, Sophia, distraída, olhou para o céu. E lá estava sua linda estrela. E Sophia sorriu. Mas já não era o mesmo sorriso. E a estrela brilhou. Mas já não era o mesmo brilho.
Mais algum tempo se passou. A estrela faltou em alguns encontros. Sophia faltou em outros. Até que uma noite uma coisa muito estranha aconteceu. Sophia olhou para o céu e percebeu que ele estava cheio de estrelas. E todas elas brilhavam. Foi neste dia que Sophia percebeu que sua estrela não era especial, não brilhava mais do que as outras. Era apenas uma estrela, no meio de tantas outras. E Sophia se apaixonou novamente. Por outra estrela, esta sim, muito mais brilhante, muito mais bonita. E Sophia esqueceu de seu primeiro amor.
E assim foi para o resto de sua vida. Somente no fim, quando já tinha amado todas as estrelas do céu, foi que Sophia percebeu que buscava nas estrelas um brilho que não existia senão dentro dela. E Sophia entendeu finalmente o que é o amor.
domingo, 18 de abril de 2010
A Arte Existe
Ao poeta perguntaram: Porque você escreve?
Escrevo – Disse o poeta – Porque tentei trabalhar, e trabalhar não pude. Escrevo porque tentei respirar, e respirar não pude. Escrevo, meu colega, porque não sei não escrever. E tentei. Ah, como tentei. Mas dessas outras coisas da vida, nada sei. Nada sei de viver. Nada sei de sofrer. Nunca aprendi a sonhar, nunca aprendi a esquecer. Nunca aprendi a calar, não sei como viver. Amigo, meu querido amigo, eu escrevo porque, de todas as coisas da vida, de todas as coisas para se ver e se fazer, só sei mesmo é escrever.
E ao musico indagaram: Pra que servem estas notas?
Essas notas – Respondeu o musico – só me atrasam a vida. Desde menino me acompanham, aonde quer que eu vá. Essas notas que me seguem, comigo nasceram. Como queria, ah como queria, delas me livrar. Por uma vez não escutar, aonde quer que eu vá, essa musica a soar, em cada rua barulhenta, em cada uivo de cachorro, em cada pássaro a voar. Mas não foi me dada escolha, não posso escolher. Vivo para ouvir, não vivo por viver. E não conheço outra vida, senão a vida de musica e harmonia. De compasso e melodia. E tenho medo de descobrir, qualquer noite ou qualquer dia, que uma vida sem musica e sem notas, essa vida que eu queria, é cinza e é triste, sem amor ou alegria. Uma vida sem prazer, sem sofrer? Não. Fico com minha amarga sinfonia.
E perguntaram ao pintor: E os quadros e pinturas?
Esses quadros – Começou o pintor – São essenciais, e de utilidade infinitamente maior que qualquer nota, que qualquer palavra. Ah, meus quadros não são arte, não são feitos para os outros. Nesses quadros guardo quem eu sou, quando me perco na minha mente e transbordo e vou, vou, vou pra longe de mim mesmo. Guardo nesses quadros aquilo que não cabe mais no coração. Que escapa do desejo, que foge da paixão. Guardo nesses quadros toda e qualquer ilusão, desde que louca demais para ensejar a realidade. De verdade. Não, não faço arte. Meus quadros são tão meus quanto minha mente, minha alma e meu braço. Fazem parte, fazem parte.
“Pra que servem, então, as notas, as palavras, as pinturas? Pra que serve essa arte?” É o coro do mundo revoltado, voltando-se contra as almas perdidas desta vida, que escrevem, que pintam e que tocam justamente porque não sabem mais o que fazer, o que dizer. Justamente porque não tem pra onde ir senão para dentro de si mesmos, ou porque já foram para todos os lugares, ou porque não podem ir a nenhum. A arte existe como fim de si mesmo, como meio de seu fim e como começo de seu meio. A arte existe como forma de expressão daquilo que não pode ser expressado sem arte, ou porque é profundamente complexo, ou porque é ridiculamente simples.
A arte existe.
Escrevo – Disse o poeta – Porque tentei trabalhar, e trabalhar não pude. Escrevo porque tentei respirar, e respirar não pude. Escrevo, meu colega, porque não sei não escrever. E tentei. Ah, como tentei. Mas dessas outras coisas da vida, nada sei. Nada sei de viver. Nada sei de sofrer. Nunca aprendi a sonhar, nunca aprendi a esquecer. Nunca aprendi a calar, não sei como viver. Amigo, meu querido amigo, eu escrevo porque, de todas as coisas da vida, de todas as coisas para se ver e se fazer, só sei mesmo é escrever.
E ao musico indagaram: Pra que servem estas notas?
Essas notas – Respondeu o musico – só me atrasam a vida. Desde menino me acompanham, aonde quer que eu vá. Essas notas que me seguem, comigo nasceram. Como queria, ah como queria, delas me livrar. Por uma vez não escutar, aonde quer que eu vá, essa musica a soar, em cada rua barulhenta, em cada uivo de cachorro, em cada pássaro a voar. Mas não foi me dada escolha, não posso escolher. Vivo para ouvir, não vivo por viver. E não conheço outra vida, senão a vida de musica e harmonia. De compasso e melodia. E tenho medo de descobrir, qualquer noite ou qualquer dia, que uma vida sem musica e sem notas, essa vida que eu queria, é cinza e é triste, sem amor ou alegria. Uma vida sem prazer, sem sofrer? Não. Fico com minha amarga sinfonia.
E perguntaram ao pintor: E os quadros e pinturas?
Esses quadros – Começou o pintor – São essenciais, e de utilidade infinitamente maior que qualquer nota, que qualquer palavra. Ah, meus quadros não são arte, não são feitos para os outros. Nesses quadros guardo quem eu sou, quando me perco na minha mente e transbordo e vou, vou, vou pra longe de mim mesmo. Guardo nesses quadros aquilo que não cabe mais no coração. Que escapa do desejo, que foge da paixão. Guardo nesses quadros toda e qualquer ilusão, desde que louca demais para ensejar a realidade. De verdade. Não, não faço arte. Meus quadros são tão meus quanto minha mente, minha alma e meu braço. Fazem parte, fazem parte.
“Pra que servem, então, as notas, as palavras, as pinturas? Pra que serve essa arte?” É o coro do mundo revoltado, voltando-se contra as almas perdidas desta vida, que escrevem, que pintam e que tocam justamente porque não sabem mais o que fazer, o que dizer. Justamente porque não tem pra onde ir senão para dentro de si mesmos, ou porque já foram para todos os lugares, ou porque não podem ir a nenhum. A arte existe como fim de si mesmo, como meio de seu fim e como começo de seu meio. A arte existe como forma de expressão daquilo que não pode ser expressado sem arte, ou porque é profundamente complexo, ou porque é ridiculamente simples.
A arte existe.
domingo, 7 de fevereiro de 2010
Entre Estações
Entre estações ele procurou um vagão. Cruzando a meia noite feito estrela-cadente, encontrou seu par naquele trem sujo e sem alma. Era de carga (o vagão), e, apoiada numa caixa de madeira levando isso que nem sei que é de um mundo triste pra outro mais ainda, ela olhava passar o mundo pela porta de correr aberta, ouvindo o vento chiar alto vez ou outra. Parado na porta, de começo só observou-a. Sentou-se ao seu lado. E sem uma palavra. Limitou-se a olhar o mundo como ela, naquele instante melancolico. Pelo quadro que se pintava a sua frente (a porta de correr aberta era a tela, o mundo, a arte) ele e ela se fundiram e, por um momento, foram um só, pois tudo que lhes era apresentado empiricamente era aquele quadro, aquele vento, aquele mundo, aquele trem, aquela caixa, e tudo que um era o outro era, e este pensamento o emocionou. Casas e campos eternos se estendiam pelo frio. Luzes de natal fora de tempo. Vidinhas apagadas naquele fim de mundo olhavam, os velhos curiosos olhavam da janela da fazenda, apontando o trem como quem aponta um Deus que desce nesta terra todo dia de passagem e ignora a tudo. Mas eram três da madrugada, as poucas mãos apontando e os poucos olhares curiosos para o trem eram silenciados pela agonizante solidão de ser o unico acordado na tua casa. Ele, menino da cidade, já tivera esta sensação. Imaginou-a amplificada por um campo sem fim, arvores e bosques e neve e um trem triste cortanto tudo isso e se sentiu maravilhosamente triste. Olhou para ela. Chorava em silencio, sem tirar os olhos da estrada. Sem tirar os olhos da estrada, deixava cair lagrimas de desespero existencial. Ou de amor. Ou de paixão. Ou de dor. Ou lágrimas, apenas lágrimas, pois sua vó lhe dizia sempre que se tivesse dar motivo para todas as suas dores, morreria da dor de não poder sofrer sem razão. E naquele unico instante, apesar de não saberem, o desejo deles foi o mesmo: Que a manhã nunca chegasse.
quinta-feira, 21 de janeiro de 2010
Dialogo Infeliz
-Nunca aconteceu de você ter essa sensação de que a vida foi imposta a você? De que tudo é um grande mistério que você passa a vida inteira tentando resolver e depois morre? As vezes eu me sinto assim, obrigado a estar vivo, mesmo sem entender o que é estar vivo. Me sinto preso na vida.
-Preso na vida? Como você pode dizer isso? A vida é um mar de possibilidades! A vida é maravilhosa! Nosso planeta é imenso e lindo, pense em quantos bosques inexplorados existem por ai, pense em quantos lindos campos de trigo você pode explorar! E isso é só o nosso planeta! Olhe para cima, olhe esse imenso universo que nos rodeia! Um universo de possibilidades, de mundos estranhos e buracos negros e misterios a serem resolvidos! E dentro de cada um de nós, o misterio da existência, do cérebro, da alma, as incríveis jornadas que podemos fazer dentro de nossa própria personalidade! Um bom vinho, uma gaivota voando no céu, um pôr-do-sol, uma casa a beira-mar! Tudo é possivel nesse mundo imenso, e temos tempo para tudo, porque hoje é só mais um dia de 365 de apenas um de muitos anos que ainda temos pela frente! A juventude é linda, a vida é cheia de possibilidades e amor, o universo está só esperando por nós!
-....
-O que?
-Odeio pessoas positivas.
-Preso na vida? Como você pode dizer isso? A vida é um mar de possibilidades! A vida é maravilhosa! Nosso planeta é imenso e lindo, pense em quantos bosques inexplorados existem por ai, pense em quantos lindos campos de trigo você pode explorar! E isso é só o nosso planeta! Olhe para cima, olhe esse imenso universo que nos rodeia! Um universo de possibilidades, de mundos estranhos e buracos negros e misterios a serem resolvidos! E dentro de cada um de nós, o misterio da existência, do cérebro, da alma, as incríveis jornadas que podemos fazer dentro de nossa própria personalidade! Um bom vinho, uma gaivota voando no céu, um pôr-do-sol, uma casa a beira-mar! Tudo é possivel nesse mundo imenso, e temos tempo para tudo, porque hoje é só mais um dia de 365 de apenas um de muitos anos que ainda temos pela frente! A juventude é linda, a vida é cheia de possibilidades e amor, o universo está só esperando por nós!
-....
-O que?
-Odeio pessoas positivas.
quinta-feira, 7 de janeiro de 2010
Juventude, Tragédia, Vida e Maturidade
Se você digitar "escola americana de santos" no Google, assim, com aspas mesmo, e clicar no primeiro link da página de resultados, vai descobrir o antigo portal da escola em que estudei durante toda minha infância. Eu fiz isso hoje, não sei porque. E eu entrei no site.
Bem-Vindo a Escola Americana de Santos
Santos, 8 de Janeiro de 2010.
A Escola Americana de Santos não existe mais. Eu sei disso. As salas de aula, os corredores, a sala de musica, todos eles deixaram de existir da forma como eu os conhecia, e aparecem vazios e assustadores na minha memória, ao som de distantes risos infantis.
Apesar disso, quando li a mensagem de boas vindas, de alguma forma me senti transportado para aquele lugar, como se a própria alma daquela que foi minha segunda casa abrisse os braços para mim e me chamasse para perto. "Bem-Vindo a Escola Americana de Santos". E eu chorei. Chorei como um filho orfão que acorda de madrugada, sonhando ter ouvido a voz de sua mãe numa canção de ninar. Chorei como um soldado que foi lançado a guerra antes mesmo de aprender a manejar uma arma. Chorei e desejei com toda a minha força poder me transportar de volta para minha antiga escola.
Existe um ditado que diz que a juventude é uma vida ainda não tocada pela tragédia. E eu acho que é isso que faz doer meu coração, ainda enquanto escrevo, cada vez que lembro da frase "Bem-Vindo a Escola Americana". Não é da minha velha escola que sinto falta. Sinto falta de mim. Sinto falta da minha antiga vida, não tocada pela tragédia; mas que o mundo inteiro saiba que, para este que vos escreve, não existe vida que não seja tragédia e não existe juventude que não seja linda. E amadurecer nada mais é do que um efeito colateral da tragédia que é perder-se num emaranhado de memórias demais e tempo de menos. E não existe juventude que dure para sempre, nem tragédia que vá embora. E também não existe maturidade que compense. Vida, tragédia, juventude e maturidade são elementos entrelaçados para sempre em um conceito absurdo e paradoxal, como quatro lados de uma mesma moeda.
E eu nunca vou deixar de chorar pela minha velha escola.
Bem-Vindo a Escola Americana de Santos
Santos, 8 de Janeiro de 2010.
A Escola Americana de Santos não existe mais. Eu sei disso. As salas de aula, os corredores, a sala de musica, todos eles deixaram de existir da forma como eu os conhecia, e aparecem vazios e assustadores na minha memória, ao som de distantes risos infantis.
Apesar disso, quando li a mensagem de boas vindas, de alguma forma me senti transportado para aquele lugar, como se a própria alma daquela que foi minha segunda casa abrisse os braços para mim e me chamasse para perto. "Bem-Vindo a Escola Americana de Santos". E eu chorei. Chorei como um filho orfão que acorda de madrugada, sonhando ter ouvido a voz de sua mãe numa canção de ninar. Chorei como um soldado que foi lançado a guerra antes mesmo de aprender a manejar uma arma. Chorei e desejei com toda a minha força poder me transportar de volta para minha antiga escola.
Existe um ditado que diz que a juventude é uma vida ainda não tocada pela tragédia. E eu acho que é isso que faz doer meu coração, ainda enquanto escrevo, cada vez que lembro da frase "Bem-Vindo a Escola Americana". Não é da minha velha escola que sinto falta. Sinto falta de mim. Sinto falta da minha antiga vida, não tocada pela tragédia; mas que o mundo inteiro saiba que, para este que vos escreve, não existe vida que não seja tragédia e não existe juventude que não seja linda. E amadurecer nada mais é do que um efeito colateral da tragédia que é perder-se num emaranhado de memórias demais e tempo de menos. E não existe juventude que dure para sempre, nem tragédia que vá embora. E também não existe maturidade que compense. Vida, tragédia, juventude e maturidade são elementos entrelaçados para sempre em um conceito absurdo e paradoxal, como quatro lados de uma mesma moeda.
E eu nunca vou deixar de chorar pela minha velha escola.
domingo, 27 de dezembro de 2009
20 anos
Meu lugar já não é nos parques
Nem nas ruas ou nos bares
Já não tenho namoradas
Faço amor com meu emprego
E minhas contas atrasadas
Já não ouço mais a musica
Com êxtase ou prazer
Ouço o som do meu passado
Na melodia, ocupado
somente em esquecer
Não posso mais sorrir
De minha própria ignorância
Não posso mais chorar
por saber vão acabar
As memórias da infância
Que vai ser desse menino?
Esse menino que foge
Da garra do mundo que avança
Assutado, com medo
De saberem, em segredo
Que é ainda uma criança
Nem nas ruas ou nos bares
Já não tenho namoradas
Faço amor com meu emprego
E minhas contas atrasadas
Já não ouço mais a musica
Com êxtase ou prazer
Ouço o som do meu passado
Na melodia, ocupado
somente em esquecer
Não posso mais sorrir
De minha própria ignorância
Não posso mais chorar
por saber vão acabar
As memórias da infância
Que vai ser desse menino?
Esse menino que foge
Da garra do mundo que avança
Assutado, com medo
De saberem, em segredo
Que é ainda uma criança
quinta-feira, 17 de dezembro de 2009
segunda-feira, 7 de dezembro de 2009
The Boy Who Saw The World in Black and White

Nobody knows how long he was trying to hide
The pain that now they know he felt inside
All they say is "he was such a happy boy"
It always seemed his eyes were filled with joy
And he always knew that they could never know
For they would never understand his world
Nobody knows how long he was trying to fight
The boy who say the world in black and white
Everyone would talk about the big blue sky
He'd just blink his eyes and wonder why
So red the roses in his backyard grew
He never found out, if he only knew
They found the dreams he painted in his room
And a paper where he wrote "I'll see you soon"
He always knew that something was not right
The boy who say the world in black and white
Nobody knows how long he cried that night
The boy who say the world in black and white
He used to say he loved to walk at night
The boy who say the world in black and white
quarta-feira, 21 de outubro de 2009
O Para-Brisa
Ele já saiu do carro gritando:
-Você não viu a seta?Eu estava dando seta!
O outro se defendia.
-Não olha no retrovisor?
-Eu dei seta!Você que devia ter olhado!Eu não acredito nisso.
Vestia uma camisa branca, divida pela gravata mais sem graça do mundo. Aquilo era um pesadelo.
-Como você me muda de faixa sem olhar no retrovisor? – O outro não deixava por menos.
-EU DEI SETA, CRISTO!
O carro amassou atrás, nada sério, porém ia ser caro concertar. Passou a mão pelo cabelo grisalho e virou-se para trás, inconformado.
O pára-brisa do carro estava ligado, apesar do sol que fazia. Pra frente, pra trás, pra frente, pra trás, num movimento eterno, ignorando a gritaria, o trânsito, tudo ao seu redor. Ele parou por um segundo e olhou aquela cena, e, de repente, viu-se perdido em memórias.
Era de noite e chovia muito. Ele tentava dormir no banco de trás do carro. Só iam chegar à cidade de manhã. Ele, seu pai e sua mãe, que dormia no banco do passageiro com a cabeça apoiada na janela. De olhos fechados, ele sonhava os sonhos que, quando criança, inundam nossa mente, mas que fogem envergonhados quando crescemos, para nunca mais voltar. Ouvia o barulho do pára-brisa, pra frente, pra trás, pra frente, pra trás, hipnótico como o pêndulo de um velho relógio que vira certa vez na casa de um tio-avô distante. Abria os olhos, vez ou outra, e via, de relance, lampejos da estrada que corria para trás. Florestas escuras de pinheiros, sombrias, assustadoras, fascinantes. Decidiu ali que queria ser explorador, quando fosse grande. Iria desbravar as matas mais escuras e descobrir as praias mais belas, vestindo um chapéu e uma jaqueta de couro. Iria dormir nos campos, esquentar comida na fogueira.
“-Pai, quando eu crescer, quero ser explorador.”
“-Explorador? Igual ao dos filmes?”
“-Isso. Igual o dos filmes.”
Deitado, dormiu, ouvindo o som do pára-brisa, e dormindo, sonhou com tudo aquilo que ia fazer quando fosse grande. No sonho conheceu terras distantes e inexploradas, caçou animais exóticos que homem nenhum tinha visto antes, cruzou rios e subiu montanhas, sempre de chapéu e de jaqueta. O pai pensou, com tristeza, que o menino ia descobrir um dia que esse mundo, que parece tão grande quando somos pequenos, é pequeno e sem graça, e que nele não sobrou nada que valha a pena explorar. O pára-brisa continuava, pra frente, pra trás, pra frente, pra trás.
-Você tem seguro?
Aquele mundo, que se estendia infinito atrás da janela do carro, nunca mais foi o mesmo, apesar de nunca ter mudado.
-Você tem seguro?
-Eu... O que?
-Você tem seguro, pra cobrir o acidente?
-Tenho, você não tem?
-Eu não tenho.
-Você não tem seguro? Você espera que eu acione meu seguro sozinho? Eu não vou assumir a culpa disso aqui sozinho não, você que se vire pra pagar o teu que eu pago o meu!
De dentro do carro, o filho assistia seu pai gesticulando, e pensava que os adultos eram estranhos. Quando perguntou para seu pai para que servia uma gravata, ele não soube responder.
O pára-brisa continuava, pra frente, pra trás, pra frente, pra trás.
-Você não viu a seta?Eu estava dando seta!
O outro se defendia.
-Não olha no retrovisor?
-Eu dei seta!Você que devia ter olhado!Eu não acredito nisso.
Vestia uma camisa branca, divida pela gravata mais sem graça do mundo. Aquilo era um pesadelo.
-Como você me muda de faixa sem olhar no retrovisor? – O outro não deixava por menos.
-EU DEI SETA, CRISTO!
O carro amassou atrás, nada sério, porém ia ser caro concertar. Passou a mão pelo cabelo grisalho e virou-se para trás, inconformado.
O pára-brisa do carro estava ligado, apesar do sol que fazia. Pra frente, pra trás, pra frente, pra trás, num movimento eterno, ignorando a gritaria, o trânsito, tudo ao seu redor. Ele parou por um segundo e olhou aquela cena, e, de repente, viu-se perdido em memórias.
Era de noite e chovia muito. Ele tentava dormir no banco de trás do carro. Só iam chegar à cidade de manhã. Ele, seu pai e sua mãe, que dormia no banco do passageiro com a cabeça apoiada na janela. De olhos fechados, ele sonhava os sonhos que, quando criança, inundam nossa mente, mas que fogem envergonhados quando crescemos, para nunca mais voltar. Ouvia o barulho do pára-brisa, pra frente, pra trás, pra frente, pra trás, hipnótico como o pêndulo de um velho relógio que vira certa vez na casa de um tio-avô distante. Abria os olhos, vez ou outra, e via, de relance, lampejos da estrada que corria para trás. Florestas escuras de pinheiros, sombrias, assustadoras, fascinantes. Decidiu ali que queria ser explorador, quando fosse grande. Iria desbravar as matas mais escuras e descobrir as praias mais belas, vestindo um chapéu e uma jaqueta de couro. Iria dormir nos campos, esquentar comida na fogueira.
“-Pai, quando eu crescer, quero ser explorador.”
“-Explorador? Igual ao dos filmes?”
“-Isso. Igual o dos filmes.”
Deitado, dormiu, ouvindo o som do pára-brisa, e dormindo, sonhou com tudo aquilo que ia fazer quando fosse grande. No sonho conheceu terras distantes e inexploradas, caçou animais exóticos que homem nenhum tinha visto antes, cruzou rios e subiu montanhas, sempre de chapéu e de jaqueta. O pai pensou, com tristeza, que o menino ia descobrir um dia que esse mundo, que parece tão grande quando somos pequenos, é pequeno e sem graça, e que nele não sobrou nada que valha a pena explorar. O pára-brisa continuava, pra frente, pra trás, pra frente, pra trás.
-Você tem seguro?
Aquele mundo, que se estendia infinito atrás da janela do carro, nunca mais foi o mesmo, apesar de nunca ter mudado.
-Você tem seguro?
-Eu... O que?
-Você tem seguro, pra cobrir o acidente?
-Tenho, você não tem?
-Eu não tenho.
-Você não tem seguro? Você espera que eu acione meu seguro sozinho? Eu não vou assumir a culpa disso aqui sozinho não, você que se vire pra pagar o teu que eu pago o meu!
De dentro do carro, o filho assistia seu pai gesticulando, e pensava que os adultos eram estranhos. Quando perguntou para seu pai para que servia uma gravata, ele não soube responder.
O pára-brisa continuava, pra frente, pra trás, pra frente, pra trás.
quinta-feira, 1 de outubro de 2009
A luva
Sentado.Os sapatos, rodeados de migalhas.Segurava um pão envelhecido na mão, que cortava em pequenos pedaços e atirava aos pombos.Uma sombra cobriu o sol, e ele olhou para cima.Aquela silhueta contornada de luz lhe era familiar.Era ela.
Sentou-se ao lado dele e o fitou, sem falar nada.Ele continuou alimentando os pombos.Tantos anos, tantos anos.-Você ficou grisalho- Disse, como se comentasse o clima.
-Eu sei-Ele suspirou em resposta.Não sabia o que dizer.Lembrava a ultima vez que à tinha visto.Ainda não tinha cabelos brancos.Fora a mais de cinquenta anos, no dia do casamento.Dela.
"Sua burra, sua burra!"Ele gritava, olhando para a janela fechada no primeiro andar, as gotas fortes de chuva estalando no seu chapeu."Eu te amo, eu que te amo!"Já virando para ir embora, ouviu o ranger das dobradiças e virou-se para cima.Lá estava ela, de vestido, de véu de noiva, usando uma luva branca na mão esquerda.
-Muito grande.
-O que?
-O pedaço de pão.Tem que ser menor, senão elas não comem.
-Hum.
Pensou mais um pouco, depois completou
-Não importa.Eu não venho aqui pelas pombas.
Começou a cortar o pão em varias partes, derrubando migalhas na perna.Ela pousou sua mão delicadamente em cima da dele.Uma lágrima molhou seus dedos.
"Vai embora."Ela quase susurrou, mas, mesmo em meio ao vento e a chuva, ele ouviu.A janela estava quase inteiramente fechada quando ele gritou."Eu lembro!Eu lembro da promessa!"Os dedos cobertos pelo tecido branco que puxavam a janela hesitaram, em seguida desapareceram.Ele virou as costas e chorou.Andou na chuva, se afastou da casa em direção a rua, caminhando pelo grande jardim.Quando estava chegando ao portão, ouviu sua voz."Eu também."Virou-se e lá estava ela, de branco, sem sapatos, o véu caido de uma forma estranha sobre sua face.O cabelo molhado da chuva.A luva em uma mão.Linda.
Correu até ele.
-Não chora.
Ele prendeu a respiração, apertando os olhos com força.Em seguida, escondeu o rosto no ombro dela e chorou.
Assinar:
Postagens (Atom)
